Design thinking (DT) é uma abordagem metodológica centrada no ser humano, com direcionamento para solucionar problemas complexos de maneira criativa e inovadora. Tem origem nas décadas de 1960 e 1970 e foi inicialmente associada com campos como a arquitetura e o design de produtos. No entanto, na década de 1980 os conceitos centrais desse método passaram a ser refinados e popularizados por designers e educadores da Stanford University, especialmente David Kelley, que fundou a IDEO, empresa de design que aplicou esses princípios em um amplo escopo de contextos. O design thinking reúne elementos de empatia, criatividade e racionalidade para abordar problemas, desafiando os métodos convencionais de pensamento e resolução de problemas, e está fortemente focado na compreensão e atendimento às necessidades dos usuários finais. Em cenários educacionais, pode apoiar o envolvimento e engajamento dos estudantes em processos criativos e reflexivos que podem encorajar a explorar questões complexas de maneira colaborativa e orientada à solução de problemas. Utilizando essa abordagem, os estudantes aprendem a exercer empatia ao investigar as necessidades e perspectivas de diferentes usuários, coletando insights através de técnicas como entrevistas ou observações. Em seguida, definem o problema de forma clara, geram ideias em sessões de brainstorming e criam protótipos rápidos para testar suas hipóteses. Essa abordagem centrada no ser humano não apenas estimula o pensamento crítico e a criatividade como prepara os estudantes com habilidades práticas para a solução de problemas do mundo real, promovendo uma aprendizagem mais significativa e aplicável.
Objetivos
O principal objetivo do design thinking como método pedagógico é incentivar a observação crítica para compreender profundamente os problemas de contexto profissional e equipar os estudantes com as ferramentas e mentalidades necessárias para abordar problemas de forma sistemática e criativa, preparando-os para as demandas dinâmicas do ambiente profissional. Além disso, outros objetivos podem ser:
a) desenvolver habilidades empáticas para entender as necessidades e motivações de usuários e colegas;
b) estimular a colaboração e o trabalho em equipe na busca de soluções criativas;
c) facilitar a geração de ideias inovadoras que possam ser aplicadas em cenários profissionais;
d) promover a construção e o teste de protótipos como forma de aprendizado prático;
e) incentivar a aceitação de feedback e a prática de melhorias contínuas nos projetos desenvolvidos.
f) fomentar a mentalidade de resiliência e flexibilidade diante de desafios e falhas;
g) desenvolver competências para a tomada de decisão baseada em evidências e experimentação prática;
h) apoiar a reflexão crítica sobre o processo de design e os resultados obtidos;
i) preparar os estudantes para aplicar o pensamento de design em diversos contextos da vida profissional e pessoal.
Requisitos
Espaço
Uma sala espaçosa e flexível, que permita reorganização fácil para trabalho em grupo, discussões e atividades práticas. Pode ser muito interessante haver espaços específicos que estimulem a criatividade para atividades de brainstorming, com superfícies onde se possa escrever ou fixar post-its, além de áreas para construção e apresentação de protótipos.
Tempo
As sessões podem variar de momentos intensivos de poucas horas até projetos que se estendem por vários dias ou semanas, dependendo da profundidade e complexidade do problema abordado. É essencial estabelecer um cronograma claro, que fracione o tempo entre as fases do design thinking: empatia, definição, ideação, prototipagem e teste.
Participantes
Um grupo diversificado de estudantes de diferentes áreas de estudo para enriquecer o processo com várias perspectivas. Grupos pequenos a médios são ideais para garantir que todos possam contribuir ativamente. Embora não seja muito habitual, pode-se fazer uso do processo de design thinking individualmente, mas a grande riqueza do método é certamente o processo de colaboração.
Temática
Diferentes temáticas podem ser adotadas nesse método para integrar as soluções desenvolvidas na prática profissional, como reflexões posteriores ou a implementação de protótipos viáveis.
Mediação
Profissionais ou educadores capacitados no entendimento em design thinking que possam guiar o processo, encorajar a participação e manter o grupo focado nos objetivos. Facilitadores também podem oferecer minicursos ou oficinas sobre as técnicas e a mentalidade de design thinking antes do início do projeto.
Materiais de suporte
Post-its, canetas, marcadores, papel branco ou flip charts para anotações e brainstorming. Acesso a computadores ou tablets para pesquisa e documentação do processo. Materiais como papelão, tesouras, fita adesiva, massa de modelar e outros itens que possam ser usados para criar modelos físicos. Tecnologia: software para design gráfico, edição de vídeo ou modelagem 3D, se aplicável ao projeto.
Procedimentos
O uso de design thinking aplicado com estudantes de educação profissional funciona como uma abordagem pedagógica orientada para a ação e a solução de problemas. A seguir, a forma como geralmente é aplicado.
Aplicações
O design thinking pode ser aplicado em uma variedade de contextos e para atender a diversos objetivos educacionais. A seguir, algumas das possibilidades.
Desenvolvimento de produto: estudantes podem usar o DT para projetar produtos inovadores ou melhorar produtos existentes, concentrando-se nas necessidades dos usuários finais.
Soluções de serviço: criar ou otimizar serviços em áreas como saúde, hospitalidade e atendimento ao cliente, priorizando a experiência do usuário.
Educação empreendedora: desenvolver planos de negócios e estratégias de startup que sejam centrados no usuário e orientados para o mercado.
Projetos comunitários: facilitar a identificação e solução de problemas comunitários ou sociais, permitindo que os estudantes apliquem conhecimentos técnicos em contextos reais e aprendam o valor do engajamento social.
Melhoria de processos: auxiliar os estudantes a analisar e refinar processos organizacionais ou de produção para melhorar a eficiência e a experiência do usuário interno.
Soluções ambientais: enfrentar desafios de sustentabilidade, desenvolvendo produtos ou sistemas que promovam práticas ambientalmente responsáveis.
Design de espaços: aplicação na arquitetura, design de interiores e planejamento urbano para criar espaços que melhor atendam às necessidades humanas e promovam o bem-estar.
Tecnologia e inovação: desenvolver soluções tecnológicas, como aplicativos, sistemas ou ferramentas digitais, que abordem questões práticas ou melhorem o aprendizado e a performance profissional.
Educação para a saúde: criar programas de educação para a saúde e campanhas de conscientização que sejam mais eficazes e empáticos com as necessidades do público.
Desenvolvimento de soft skills: promover o desenvolvimento de habilidades interpessoais, como comunicação, liderança e trabalho em equipe.
Educação inclusiva: projetar materiais didáticos ou estratégias pedagógicas que atendam às necessidades de aprendizes com diferentes estilos e capacidades.
Exemplo
Um professor de educação profissional que ensina Design e Desenvolvimento de Sistemas Web deseja que os alunos aprendam a criar sites que não apenas sejam esteticamente agradáveis, mas funcionais, acessíveis e centrados no usuário. O professor decide utilizar o design thinking para abordar um projeto de criação de um website para uma ONG local que busca aumentar a conscientização e captar recursos para uma causa social.
Fase 1 – Empatia
O professor convida um representante da ONG para falar com a classe sobre a missão da organização, os desafios enfrentados e as necessidades específicas em termos de comunicação e captação de recursos. Os estudantes promovem uma sessão de perguntas e respostas e talvez façam uma pesquisa com potenciais visitantes do site para entender melhor o público-alvo.
Fase 2 – Definição
Com base nos insights coletados, os alunos, sob orientação do professor, definem o problema central que o website deve resolver. Eles criam personas para representar os usuários típicos e elaboram uma “declaração de problema” que sintetiza o objetivo do projeto.
Fase 3 – Ideação
O professor organiza uma sessão de brainstorming em que os estudantes propõem diversas ideias para o layout do site, com características e conteúdo que podem atender às necessidades identificadas. Não há críticas nessa fase, para encorajar a liberdade criativa.
Fase 4 – Prototipagem
Os alunos são divididos em pequenos grupos para prototipar suas ideias. Eles podem usar papel e caneta, quadros brancos ou ferramentas de design de protótipos de interfaces digitais para esboçar as páginas principais do site. Cada grupo escolhe um protótipo para desenvolver mais detalhadamente.
Fase 5 – Teste
Os protótipos são apresentados ao representante da ONG e talvez a um grupo de usuários externos para feedback. Os alunos observam as interações e anotam quaisquer problemas de usabilidade ou sugestões de melhoria.
Reflexão e Iteração
Após o teste, o professor conduz uma sessão de reflexão, em que os alunos discutem o que aprenderam com o processo e como podem melhorar seus designs. Eles retornam à etapa de prototipagem ou ideia, se necessário, para refinar suas soluções.
Avaliação
O professor avalia não apenas o produto final, mas a participação dos alunos em cada etapa do processo, sua capacidade de trabalhar em equipe, a criatividade e a eficácia de suas soluções de design, bem como sua reflexão sobre o aprendizado. A partir disso, pode-se pensar na implementação efetiva do produto, aplicando suas habilidades técnicas em HTML, CSS, JavaScript, acessibilidade e SEO.
Esse projeto resulta em um produto tangível que beneficia a comunidade, além de ensinar aos estudantes um processo replicável de resolução de problemas e design centrado no usuário que eles podem levar para suas futuras carreiras.
Dicas para formato on-line
O design thinking em formato on-line é completamente viável, e algumas dicas podem melhorar sua realização.
Ferramentas: use recursos tecnológicos adequadas para comunicação, tais como Zoom, Microsoft Teams ou Google Meet, que permitem a criação de salas simultâneas onde diferentes grupos podem trabalhar, além de outros recursos como compartilhamento de tela, chat e gravação. E para o processo colaborativo, plataformas como Miro e Mural ajudam na realização de geração de ideias no processo criativo, bem como na criação de mapas mentais e da prototipagem.
Preparação: é importante que as ferramentas sejam testadas com antecedência e todos os participantes tenham acesso e sejam capacitados nas ferramentas necessárias. Forneça uma agenda clara com links, tempos e expectativas para cada sessão, além de tutoriais e vídeos para que possam se preparar previamente.
Processo: encoraje os participantes a escolherem um espaço de trabalho tranquilo. É muito importante também estabelecer pausas regulares, uma vez que em geral, em um ambiente virtual, é mais difícil manter o engajamento contínuo por longos períodos. É produtivo também, logo no início, estabelecer regras claras. Por exemplo: como as pessoas devem indicar que querem falar? O que devem fazer se precisarem sair rapidamente? Se a pessoa tiver problemas de conexão, como proceder? Entre outras questões particulares do ambiente virtual.
Facilitação: em ambientes virtuais, o papel do facilitador é ainda mais crucial, sendo importante que ele seja engajado e capaz de manter a energia, usar recursos como enquetes, quizzes ou outras atividades interativas que podem ajudar a sentir o clima de engajamento. Em processos virtuais, ter uma ou mais pessoas que possam apoiar a pessoa facilitadora pode ser bastante produtivo e trazer maior segurança. O formato virtual pode trazer surpresas, como problemas técnicos, e as pessoas facilitadoras devem estar prontas para se adaptar, flexibilizar e oferecer soluções e alternativas.
Acompanhamento: forneça aos participantes a oportunidade de feedback sobre como o processo está ocorrendo. Fazer check-ins rápidos no início e no final de cada dia pode trazer ótimos resultados para ajustes conforme necessário.
Documentação: uma vez que não há presença física, é ainda mais importante documentar tudo digitalmente, em cada equipe uma pessoa pode ser especialmente designada para fazer anotações e capturar insights.
Referências
Design thinking: uma metodologia poderosa para decretar o fim das velhas ideias
por Tim Brown
Design thinking na educação presencial, à distância e corporativa
por Andrea Filatro e Carolina Costa Cavalcanti
A jornada do design thinking
por Michael Lewrick, Patrick Link e Larry Leifer
Design thinking para educadores
https://educadigital.org.br/dtparaeducadores/
Design thinking toolkit
